Razões & Proporções por Vitor Santos

Eixos de Opinião outubro 2013



A Matemática debate-se com problemas com números e a Psicologia enfrenta inúmeros problemas,  igualmente complexos. A Psicologia estuda o comportamento e os processos mentais. Nesta rubrica vamos estudar alguns comportamentos, não individuais, mas colectivos através da realidade dos números.                  

 

 Victor Santos - Psicólogo 


Razões & Proporções por Victor Santos

Artigo de outubro de 2013   


Título: Estamos em crise...


Num momento em que se discute o Orçamento de Estado para 2014, assente em 85% nos cortes nas pensões e nos salários, quero refletir sobre o que a crise trouxe às famílias portuguesas, com os cortes continuados.

Vivemos, principalmente com a nossa entrada na União Europeia na perspetiva de sermos europeus em tudo, na convergência dos salários, na qualidade de vida, no progresso, no desenvolvimento. O início do século XXI reforçaram estas expetativas dos anos dourados das economias e modelo europeus, mas a partir de 2008 e, principalmente, nos últimos 3 anos tornaram-se como um atentado à dignidade das pessoas, numa estratégia de empobrecimento abrupto da classe média e aos valores e princípios civilizacionais que edificaram o modelo de desenvolvimento europeu.

Num primeiro momento, a nossa estratégia foi vender alguns dos nossos bens. Por isso, a OLX tem tanto sucesso entre nós. Privatizamos os bens familiares, trespassamos os negócios de família a uns chineses de carros de alta cilindrada e telemóveis topo de gama, as casas da aldeia vendêmo-las a uns russos, com pagamento em cash e com a autorização de residência permanente, os terrenos de cultivo a uns reformados  alemães ou nórdicos. Vendemos os anéis, as joias de família, o ouro para a globalização para sermos um país exportador. Temos sido obrigados a desafazermo-nos de objetos de afetos, de simbolismos de qualidade de vida pela nossa dignidade, num processo idêntico ao da burguesia arruinada dos séculos 18 e 19.

Num segundo momento, começamos a dispensar serviços: a empregada de limpeza passou de 3 para um dia por semana e depois foi dispensada; a reabilitação regular que fazíamos na nossa casa deixou de ser feita, do jardineiro, ao trolha. Ah, é verdade fizemos diminuir a economia paralela. Mas também acabamos com projetos inovadores e estratégicos como as energias renováveis.

Depois começamos a utilizar menos serviços. A ida ao cabeleireiro passou de quinzenal a mensal, depois bimestral e depois tivemos de procurar outro porque fechou, como fecharam muitos dos “nossos” restaurantes de referência. Agora jantamos fora, mas é no nosso pátio ou na nossa varanda. Investimos na educação dos filhos, mas uma boa parte dos ATLs são os próprios avós. Reduzimos para o essencial na saúde, na cultura ou é à borla ou ficamo-nos pelas discussões acaloradas com os nossos amigos. Na alimentação é a contenção ( também é mais saudável, é a luta contra a obesidade). À mesa tornamo-nos trinca-espinhas do futuro. (ainda fazemos umas jantaradas com os amigos, mas não se pode saber. Para a próxima convido-o).

Neste quadro negro há coisas positivas. A minha balança comercial está hoje muito mais equilibrada.  Se conseguir reduzir ainda mais nas compras e comercializar (ou exportar) os meus magnórios, os meus figos, os meus diospiros, a balança comercial ainda ficará positiva. Só tenho para aí uns 5 Kgs desta fruta, mas é assim que mostro as minhas capacidades empreendedoras E para mostrar este foco no negócio estou a pensar comercializar pasteis de Belém para os índios da Amazónia, roupas da  Nike, da Ana Salazar e da Fátima Lopes e licores alcoólicos e vinhos do Porto para as comunidades mórmons americanas. E para diversificar as áreas de negócio vou  registar uma patente dum produto inovador ligado às novas tecnologias para a dança das chuvas.

A continuarmos por este caminho e a este ritmo, muitos de nós vão acabar na “sopa dos pobres” ou no Banco Alimentar.  Tornámo-nos sorumbáticos dos nossos sonhos, sonâmbulos das nossas sombras, tristes nos olhares vazios, parcos de palavras, num interior solitário (que tanto quis ser solidário). Estamos a criar ilhas dentro de nós próprios, perdemos portos de abrigo e âncoras. Percebemos a quietude do abandono, da desilusão, da incapacidade do sonho, da alegria. A sociedade do autómato ganhou, tornámo-nos robôs da crise, sem sentido, nem sentimento.

Até quando? Até tu e eu, todos nós voltarmos a acreditar em nós próprios, no que fomos e queremos ser e dar aos nossos filhos.





Publicado/editado: 29/10/2013