Eixos de Opinião dezembro 2013



 


Opiniões, reflexões e observações, sem pretensões... A Matemática, o Ensino da Matemática e outros aspetos relacionados, serão por aqui vistos e comentados, com algum humor - sempre pelo lado positivo e "moduladas" pelo exercício da profissão docente.              

 

Paulo Correia - Professor de Matemática da Escola Secundária de Alcácer do Sal e responsável pela página mat.absolutamente.net     



Valor Absoluto por Paulo Correia  

artigo de dezembro de 2013  

Clube de Matemática SPM


Título: Achar e saber


Não sou um investigador e podemos apontar defeitos “à academia” e à “comunidade de investigação”, mas é da mais elementar justiça reconhecer que “opiniões” são coisa pouco valorizada entre os investigadores. Procuram evidências e sustentação para as afirmações que fazem, confrontam as suas conclusões com as conclusões de outros e munem-se de muitas cautelas antes de fazer afirmações perentórias. De resto esta atitude deveria ser cara aos matemáticos... na matemática, todos concordamos que uma coisa não está bem ou mal, porque se acha que sim... é preciso provar e, é preciso encontrar argumentos para convencer a maioria, ou os especialistas que o que provámos faz sentido.

Em 2008 o então presidente da SPM (e atual ministro da educação) considerava que o PISA o “único instrumento viável para a avaliação do nosso sistema”. Se não mudou de ideias, estamos de acordo. Bem... não é o único, mas é um instrumento importante!

As alterações curriculares que vinham sendo feitas tinham sido cuidadosamente confrontadas e sustentadas com a investigação em educação matemática. E os resultados estão à vista. O PISA continua a dizer que estávamos a fazer bem, que os nossos alunos aprendiam mais e melhor com as indicações metodológicas, com a utilização da tecnologia, com a valorização da comunicação matemática, com maior ênfase na avaliação formativa que na avaliação externa, com um acompanhamento de proximidade do trabalho dos professores, com a valorização do sentido dos algoritmos a par da sua prática, com a memorização dependente da compreensão, com a disponibilização de tempo para o trabalho dos alunos em vez de transmitir as definições, e com todas as abordagens que alguns acharam “românticas”. 

E esta melhoria não foi à custa de uma elitização do ensino... ou seja, poderíamos ter melhorado globalmente, apesar dos piores alunos continuarem mal, mas não foi isso que se verificou – os melhores melhoraram, e os menos bons... também melhoraram – melhoraram todos!

Por isso é difícil de aceitar que se tenham alterado os programas de forma descuidada, sem convencer os professores, contra os pareceres dos especialistas e sem o apoio da maioria, e com a pressa de quem vê o tempo a esgotar-se, como se o tempo para fazer melhor... se esgotasse. Mudou-se porque sim. Acharam que seria melhor. Sustentou-se a necessidade de mudar em... opiniões. 

Acha-se agora que o próximo PISA irá confirmar os méritos destas propostas, apesar de mudarmos radicalmente o rumo que estava a produzir estas melhorias. Vamos “pagar para ver”?

Já sabíamos que estávamos no bom caminho – a investigação dava-nos essa segurança – e os resultados dos PISA vieram consolidar essa perceção, outra vez! Também sabemos que o currículo que agora é imposto empobrece as aprendizagens e promove uma elitização do sucesso escolar dos alunos – a história mostra-nos isso – mas para termos indicadores externos que permitam sustentar este retrocesso teremos que esperar... teremos que esperar que o retrocesso ocorra de facto!


Eu acho que quando chegarem os dados que confirmem o retrocesso diremos, como dizemos agora – mas sem a mesma satisfação – “eu sabia”...





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Publicado/editado: 10/12/2013