"Com Peso e Medida" é um espaço para ser desenvolvido não por um matemático, mas por um médico. Mas o que é que a matemática tem a ver com a medicina? Sabia que a terminologia "Série de Lesões" tem a ver com a matemática? Pelo menos é uma expressão muito usada nos domínios hospitalares. Nos Estados Unidos da América muitos profissionais da medicina têm tido a necessidade de tirar um segundo curso, nada mais nada menos que o curso de Matemática.


 Fernando Silva - Médico. Especialista em Ortopedia. Mestrado em Medicina Desportiva 


Título: Recuperação e módulo de elasticidade


Como todos os materiais, na generalidade, o nosso corpo apresenta modificações que são reversíveis dentro de determinados parâmetros; comparativamente á deformação de uma mola que sofre uma deformação elástica até ao seu limite (modulo de elasticidade) a partir do qual sofre uma deformação plástica da qual não recupera totalmente.


Existe alguma semelhança com o funcionamento dos nossos músculos, cuja função primária (mas não única) é a geração de força através do seu encurtamento (contracção) seguido de relaxamento.


Quando esta harmonia se altera e o músculo perde capacidade de recuperação existem os normais sinais de alarme: perda de precisão dos movimentos (falha de um remate ou de um passe de bola, passo de corrida “mais pesado”, erros mais grosseiros de movimento com quedas…); sensação de tensão muscular; contractura muscular; rotura muscular.


Intuitivamente diríamos que a rotura muscular é a mais difícil de tratar, mas de facto em condições normais de repouso a biologia encarrega-se da sua cura.

Mas tal pode não acontecer com a mais “traiçoeira” contractura que se pode perpetuar; com exames (ecografia ou ressonância) desconcertantemente normais.

Isso porque, excluindo a lesão anatómica, continuamos com problemas a resolver, a que se poderia chamar de “lesão” bioquímica, bioeléctrica, neuromuscular, …


A sua prevenção assenta ao trabalho de recuperação em várias vertentes: bioquímica (hidratação, aporte de glicose e iónico, alimentar ou através de suplementos); biomecânico (flexibilidade); outros meios como a hidroterapia e a massagem que combinam a anterior com a circulatória e a neuromuscular; e ainda o intervalo entre treinos e o importante sono.


Todos estes aspectos devem ser aprofundados e trabalhados para que se mantenha uma boa recuperação.


Um dos erros comuns é trabalhar apenas um pormenor e ignorando muitos outros. Um exemplo clássico é o de um corredor de maratona (em 1912) se ter coberto com sebo para reduzir a perda de líquidos pela transpiração. Ao perder o principal meio de redução da temperatura corporal, sofreu hipertermia e desequilíbrio hidroelectrolítico, que associado a outros factores viria a culminar na sua morte.


Podemos reflectir no final se o treino deve elevar a nossa capacidade, o nosso “módulo de elasticidade” ou ambos…



Publicado/editado: 03/05/2011