"Com Peso e Medida" é um espaço para ser desenvolvido não por um matemático, mas por um médico. Mas o que é que a matemática tem a ver com a medicina? Sabia que a terminologia "Série de Lesões" tem a ver com a matemática? Pelo menos é uma expressão muito usada nos domínios hospitalares. Nos Estados Unidos da América muitos profissionais da medicina têm tido a necessidade de tirar um segundo curso, nada mais nada menos que o curso de Matemática. 


 Fernando Silva - Médico. Especialista em Ortopedia. Mestrado em Medicina Desportiva  


Título: As histórias não escritas

 

Ao longo dos anos, nos serviços de urgência vai-se cumprindo um trabalho silencioso.

 

Histórias sem fim acabam aí de forma anónima. Em algumas situações a realidade supera a ficção.

 

Há histórias com uma ponta de humor: a equipa do INEM chega ao local do acidente, encontra no chão duas motorizadas e … seis jovens com ferimentos sem gravidade.

 

Há histórias que correm inexplicavelmente melhor: numa motorizada seguia uma família: pai, mãe grávida e filho de 7 anos. Têm um acidente. Apenas a mãe tem necessidade de tratamento cirúrgico a uma fractura, o filho tem uma fractura tratada apenas com gesso e o bebé nasce passado pouco tempo sem qualquer complicação.

 

Há histórias que correm inexplicavelmente pior: O avô regressa a casa com o neto de um treino de futebol. Em sentido contrário vem de carro um jovem toxicodependente, acompanhado da sua namorada grávida. Perde o controlo da viatura e vai embater no primeiro. O avô morre, os restantes têm várias fracturas e o bebé mantém sinais de vitalidade.

 

As urgências são más em primeiro lugar por esta “inundação” interminável de histórias, resultado em boa medida da deficiente orientação e formação sócio-cultural, excluindo como é óbvio as vítimas inocentes. Além das causas traumáticas, muitas doenças estão associadas a maus hábitos alimentares, consumo de álcool, e outros; e que inflacionam as que são independentes destes factores.

 

Só a educação e a formação poderá alterar os hábitos e os acontecimentos e as novas gerações não parecem sensibilizadas. Basta referir que Portugal tem uma das mais altas taxas de obesidade infantil da União Europeia.

 

E para falar em alguns números, num exemplo anónimo, adaptado da realidade, de determinado ano, ocorreram num serviço de urgência admissões por:

 

®    Doença                     = 138716

®    Queda                       =   14553

®    Acidente escolar       =     2973

®    Acidente viação        =     2963

®    Agressão                    =     1567

®    Acidente desportivo  =      589

®    Atropelamento          =       289

 

Estaremos mais susceptíveis á doença? Existirá um problema de equilíbrio ou de desatenção? É mais perigoso ir á escola do que andar de carro? Será que se está a desenvolver um modelo violento de sociedade?...

 

Enquanto assim for, com mais ou menos confusão, simpatia, ou disponibilidade as pessoas vão obtendo, na esmagadora maioria das situações o tratamento de que necessitam, no pouco tempo e por vezes pouco espaço que os profissionais têm para agir.

 

Há alguns anos atrás, num programa de televisão sobre ciência ouvi uma história sobre a interpretação do mundo: “ se um extraterrestre viesse á terra e observasse os terráquios continuamente a olhar para o relógio, poderia fazer o seguinte relatório para o seu planeta: que força tem aquele pequeno aparelho que colocam no pulso. Entre as 07- 08h faz levantar toda a gente. Faz toda a gente comer ás 13h e ás 20h e deitar ás 22h. De uma forma geral consultam-no continuamente para receber instruções do que fazer a seguir”.

 

A cegueira de não ver é má, mas a de não perceber é pelo menos triste. O ensino e a matemática em particular, desenvolvem essa capacidade de compreensão; de uma nova visão.

 

Na célebre historia (ou mito) sobre a queda de uma maçã na sua cabeça, Isaac Newton desenvolve a teoria sobre a força gravitacional e a lei da atracção universal. Será lícito perguntar se a maçã se sentiu atraída por Newton? ...

 

As maiores felicidades.

 

Publicado/editado: 03/06/2011