Parecer sobre a Prova de Aferição de Matemática e Ciências Naturais - 6 de junho

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A Sociedade Portuguesa de Matemática começa por lamentar mais uma vez a eliminação das provas finais do 1.º e do 2.º ciclo, que constituíam um instrumento fundamental de monitorização da qualidade do sistema de ensino nacional. Estando em construção, na comunidade educativa, um amplo consenso quanto à ineficácia das provas de aferição do 2.º e do 5.º ano, a SPM apela à tutela para que restabeleça com urgência a existência de uma prova final do 4.º ano e outra do 6.º ano de escolaridade. 

Com a revogação destas provas, deixou de existir nestes últimos quatro anos um qualquer indicador nacional que afira a qualidade da aprendizagem efetuada pelos alunos no final destes ciclos, fundamentais para a aquisição de conhecimentos e capacidades estruturais em Matemática, bem como de leitura, escrita e de capacidade interpretativa da língua portuguesa.

Esta falta de monitorização do nosso sistema é especialmente gravosa numa altura em que a implementação do projeto de Autonomia e Flexibilidade Curricular dá liberdade às escolas, professores e alunos de “construírem o seu próprio currículo” com grande autonomia e sem qualquer avaliação externa que meça a respetiva qualidade e eficácia, ou que identifique as assimetrias regionais e sociais que inevitavelmente não deixarão de ocorrer.

A prova de hoje, não contendo erros científicos, apresenta um grau de complexidade que fica aquém daquilo que seria esperado para alunos do final do 5.º ano. Por outro lado, avalia em diversas situações um mesmo conteúdo (como a área do paralelogramo ou o perímetro do retângulo) em detrimento de outros conteúdos importantes da Geometria do 5.º ano. Trata-se de facto de uma prova pobre em termos de conteúdos matemáticos. Referimos ainda que:

• o item 8.1 é muito semelhante ao item 8 da prova de aferição do 2.º ano de 2018. Este curioso facto levanta uma séria questão sobre a adequação dessa prova de 1.º ciclo então realizada, e cujos (maus) resultados levaram o Ministério da Educação a traçar um quadro negro do estado do ensino da Matemática, contrário a todos os indicadores nacionais e internacionais disponíveis à data. A SPM reitera que apenas provas comparáveis de ano para ano e adequadas em termos de complexidade e de dificuldade permitem tirar conclusões corretas e fiáveis.

• É desadequada uma avaliação conjunta da disciplina de Matemática e de Ciências Naturais. Trata-se de uma tentativa artificial de interdisciplinaridade, não havendo nenhum item que de facto avalie conjuntamente conhecimentos e capacidades destas duas áreas em simultâneo. Na verdade, uma interdisciplinaridade saudável só pode ter lugar depois de uma consolidação adequada das áreas disciplinares que a compõem, consolidação essa que ainda se encontra em construção no 2.º ciclo. Por esta razão, toda a prova se torna palavrosa, desenvolvendo-se em torno de um enredo desinteressante e confuso. Os enunciados contêm demasiada informação supérflua, suscetível de distrair os alunos e de perturbar a avaliação dos conhecimentos e capacidades matemáticas importantes que realmente importam medir.

• No item 8.2 seria importante referir que “No aquário de base A ficou ½ dos cabozes que existiam inicialmente nesse aquário” e que “no aquário de base B ficou 1/3 dos cabozes que existiam inicialmente nesse aquário”. De facto, a forma como o item foi redigido poderá induzir alguns alunos em erro, não se podendo por isso considerar que esteja corretamente formulado. É de notar que o uso de frações para representar respetivamente “a metade” e “a terça parte” no enunciado do exercício é um mau exemplo de redação de um texto em português. Estes conceitos, no quadro dos números naturais (como é o caso deste exercício) dispensam aliás o conceito de fração e aparecem já no programa do 2º ano a propósito da divisão inteira, ainda antes de se introduzirem as frações. Embora mais tarde se verifique que podem constituir casos particulares do uso das frações, trata-se aqui precisamente de uma situação para a qual estas são perfeitamente supérfluas.

• No item 10 não se indica a quantidade total de água potável existente no planeta; apenas se indicam relações entre essa quantidade e as quantidades de água salgada e de água doce não potável. Também não se fornecem elementos que permitam concluir qual a quantidade de água doce ao nível do planeta que seria adequada para o consumo humano num futuro previsível. Torna-se assim difícil responder ao item 10.2 apenas com os dados fornecidos, ainda que os alunos calculem a percentagem de água potável (0,0075% dos 2,5% de água doce!); «uma percentagem pequena» (qualquer que seja a bitola utilizada) não é sinónimo de «uma quantidade insuficiente para o fim em vista».

• Os alunos que não saibam ler adequadamente um diagrama de caule-e-folhas ficam impedidos de resolver dois itens seguidos (9.1 e 9.2), o que é excessivo. Por outro lado, as nuances entre as diferentes opções apresentadas na alínea 9.2 parecem-nos pouco interessantes de um ponto de vista avaliativo.

 

Publicado/editado: 06/06/2019