Parecer sobre a Prova Final de Matemática - 3.º Ciclo do Ensino Básico

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A partir do próximo ano letivo chegam ao 9.º ano de escolaridade os primeiros alunos que a título experimental foram submetidos ao projeto de “Autonomia e Flexibilidade Curricular”. As escolas a que pertencem não foram obrigadas a cumprir os programas das disciplinas, sendo por isso desconhecido – facto inédito em Portugal - o ensino que lhes foi ministrado, em termos de conteúdos efetivamente lecionados, de capacidades que se procuraram desenvolver ou mesmo de técnicas matemáticas-chave, que poderão não ter sido lecionadas.

Impõem-se medidas urgentes, que terão de passar por um diagnóstico sério do trabalho que foi efetivamente realizado com estes alunos no 7.º e no 8.º ano, corrigindo-se durante o próximo ano letivo todas as deficiências que não deixarão de transparecer. Caso contrário, a prova final de 3.º ciclo de hoje poderá vir a ser a última a obedecer a uma matriz minimamente clara e objetiva, sendo o documento intitulado Aprendizagens Essenciais demasiado amador e vago para servir este propósito. A Sociedade Portuguesa de Matemática gostaria de aproveitar esta ocasião para relembrar o impacto extremamente positivo que estes exames tiveram ao longo de 15 anos na promoção de um ensino de qualidade em Portugal. Entre outros fatores, foi certamente uma medida que muito contribuiu para os avanços observados neste período e que são reconhecidos por todos, no plano nacional e internacional. Comprometer esta prova - como tudo aponta que irá acontecer - terá efeitos trágicos no prosseguimento deste caminho.

A estrutura da prova de hoje é muito semelhante à do ano passado, observando-se, contudo, uma diminuição do grau de dificuldade geral. Solicita-se na esmagadora maioria das questões a execução de tarefas de natureza rotineira e de baixa complexidade (1-2 passos). Nas escolas que não se deixaram perturbar pelas “novas” (na realidade bem velhas) ideias pedagógicas que acompanham o projeto de Autonomia e Flexibilidade Curricular, será de prever um maior sucesso. Nas outras, poderão começar a aparecer desde já várias debilidades no desempenho dos alunos.

A prova não contém erros científicos e é constituída por 21 itens. Apenas três dizem respeito ao domínio Números e Operações (domínio que assim fica algo subavaliado). Existem sete itens relativos ao domínio Geometria e Medida, quatro relativos a Álgebra, quatro relativos a Funções Sequências e Sucessões e finalmente três a Organização e Tratamento de Dados. Em termos de anos escolares, dez itens pertencem ao 9.º ano, sete ao 8.º ano e quatro ao 7.º ano de escolaridade.
Salientamos que:

• Os itens mais trabalhosos são o número 7 (pelo número de passos necessários a uma correta resolução) e o número 18 (pelos cuidados que os alunos deverão evidenciar para escrever corretamente as relações fornecidas pelo Teorema de Tales/semelhança de triângulos).
• No item 2, a menção a uma “rampa de acesso ao areal” - inútil para o que se pretende avaliar – poderá funcionar como um distrator, o que era desnecessário.
• Relativamente ao item 14, e tal como sucedeu na prova de aferição do 2.º ano, enaltecemos o facto de ser fornecida a regra de formação dos elementos da sequência. De facto, tal como a SPM tem referido abundantemente, a omissão desta informação tornaria o enunciado irresolúvel.
• O item 13 parece-nos demasiado pobre, substituindo-se uma eventual avaliação mais consequente das funções de proporcionalidade inversa por uma simples tabela de grandezas inversamente proporcionais com duas colunas.
• Ainda que a modelação matemática constitua uma atividade importante que deve ser promovida, é algo chocante que no item 15 não se solicite a resolução final do problema proposto.

Em suma, trata-se de uma prova sem surpresas, muito acessível, que não avalia adequadamente o que é prescrito pelo currículo do 3.º ciclo e que confirma a tendência observada para uma simplificação das diferentes avaliações externas. Com efeito, solicita-se o mínimo que um aluno em final de 3.º ciclo deveria saber fazer (resolver diretamente equações do 1.º e do 2.º grau, aplicar diretamente o Teorema de Pitágoras, saber a definição de mediana, de soma de vetores, resolver um problema simples com um sistema de equações lineares, ler um gráfico…etc). Ainda que uma prova com estas características deva obviamente conter questões deste tipo, não pode resumir-se a elas. Este caminho poderá implicar que os professores que se esforçam por fazer um trabalho rigoroso comecem a ficar sujeitos a sérias pressões no sentido de diminuírem a exigência.

Publicado/editado: 27/06/2019