Parecer sobre o Exame Final Nacional de Matemática A - 15 de julho 2020

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  1. O exame que hoje se realizou apresentava uma estrutura totalmente diversa daquela que tem sido habitual nos últimos anos. Este facto deve-se naturalmente à situação de pandemia vivida durante boa parte do ano letivo e ao profundo impacto que teve no normal funcionamento das escolas.

  1. Contudo, consideramos insuficiente a adaptação feita pelo IAVE, I.P. à estrutura e ao sistema de classificação da prova. De salientar que o Conselho Científico do IAVE, em que a SPM tem assento, foi pura e simplesmente ignorado neste processo, apesar de ter como principal missão e vocação a análise científica e pedagógica das diferentes provas nacionais.

  1. Neste ano deveria ter existido um especial cuidado na avaliação e seleção dos alunos que se candidatam ao ensino superior, o que não aconteceu por diversas razões:

- os itens de maior complexidade encontram-se perdidos entre os 14 opcionais, dos quais apenas os 8 melhores contarão para a classificação. Assim, estes itens mais seletivos terão um impacto muito diminuto nas classificações finais dos alunos.

- os quatro itens obrigatórios, que versam sobre conteúdos do 10.º e do 11,º ano, são aqueles que vão no essencial distinguir os alunos. Ora entre estes itens encontra-se um de escolha múltipla (o item 7.1) em que um simples erro de cálculo sem importância poderá determinar uma perda irreparável de pontuação. Por outro lado, todo o item 7 é extremamente confuso e palavroso e sem qualquer profundidade matemática. Estes itens com contextualizações totalmente artificiais ao mundo real não se viam no exame nacional há muitos anos, sendo relativamente consensual a sua ineficácia numa avaliação que se quer objetiva, rigorosa, e que reflita corretamente o nível de conhecimentos e de capacidades desenvolvidas pelos alunos durante o ensino secundário. De salientar ainda que o item 7.2 é um item que avalia em parte a capacidade de utilização da calculadora gráfica.

  1. Percebe-se a tentativa feita de apenas colocar entre os itens obrigatórios aqueles que correspondem a conteúdos seguramente lecionados de forma uniforme a todos os alunos, por pertencerem ao programa do 10.º e do 11.º ano. Mas como explicar então que os itens 1.1, 6 e 8 não figurem também neste grupo? Os itens 6 e 8 (assim como o item 7.1) poderiam ter sido sem qualquer esforço convertidos em itens de resposta aberta, o que colmataria, em parte, os problemas que se avistam na seleção dos alunos para o ensino superior.

  1. Tal como já foi referido anteriormente pela Sociedade Portuguesa de Matemática, o peso excessivo dado aos itens de escolha múltipla (o dobro do que tiveram no passado ano letivo) é incompreensível e totalmente contrário à missão de uma prova que deveria, especialmente neste ano, avaliar os alunos da forma mais justa possível.

Em suma, a SPM considera infeliz a adaptação feita à prova pelo IAVE, sendo certo que o sistema encontrado de itens facultativos vai concentrar as classificações dos alunos, tornando-se extremamente difícil, se não mesmo impossível, seriar de forma justa os futuros candidatos ao ensino superior, esperando-se igualmente um planalto das classificações mais altas.

Com uma prova com estas características, o esforço e o empenho dos alunos não são recompensados.

A Direção da Sociedade Portuguesa de Matemática

Publicado/editado: 15/07/2020